Hoje foi um dia relativamente tranqüilo para nós. Logo cedo fomos eu e Elaine a uma igreja luterana perto do apartamento que estamos. Apesar de não haver um coral cantando como na época de Bach, podemos reconhecê-lo nas melodias dos hinos cantados pela assembléia.
À tarde conseguimos descansar e estudar um pouco. Elaine com o concerto de Bach e eu com as músicas do madrigal e da classe de regência.
O concerto da noite foi com a Orquestra Filarmônica do Espírito Santo dirigida pelo maestro Helder Trefzger. A orquestra apresentou “Prelude and Fugue – The Spitifire” de Willian Walton, Concerto para harpa e orquestra de Radamés Gnatali e Sinfonia em Ré menor de Cesar Franck. O prelúdio de Walton remete às marchas militares tocadas nas escolas americanas pelas bandas sinfônicas estudantis de altíssimo nível.
Já o Concerto para Harpa de Gnatali foi o ponto alto desta apresentação. A escrita de Gnatali impressiona por ser dissonante sem perder a ternura. Apresenta a dissonância de maneira doce e gentil. Sua sonoridade, principalmente nas cordas e madeiras, lembra as melodias harmonizadas da MPB na época da bossa-nova. Aliás, ele a influenciou fortemente tendo sido professor do nosso querido Tom Jobim.
A atuação da harpista que é integrante da orquestra (Cristina Carvalho) foi brilhante. A harpa é um instrumento que remete à antiguidade, ao Egito e mesmo à Grécia antiga, que tinha Orfeu com sua lira feita das tripas de um animal. Dizem que foi ele quem deu som à poesia e criou a canção. Dessa mesma forma, com a canção, seduziu o Caronte (barqueiro que conduzia as almas à morada de Ades) e buscou Eurídice na grande lenda da mitologia grega Orfeu e Eurídice. Realmente a harpa hipnotizou o público do Cine Teatro Central em Juiz de Fora que parecia imóvel nas poltronas e com olhos arregalados durante o concerto de harpa. As melodias doces eram mescladas com contrastantes acordes dissonantes, mas, tudo com muito bom gosto e sutileza. Para este número Radamés deixou apenas as cordas da orquestra acompanhando a harpa solista.
A sinfonia de Cesar Franck traz o peso da tradição da música francesa. Rica em combinações timbrísticas ela também encanta pelo melodismo e sutilezas harmônicas típicas dos compositores da terceira geração de românticos com modulações surpreendentes que contrastam com densidades sonoras e efeitos que não nos deixam perder a atenção um só segundo.
A orquestra em todo repertório se apresentou com classe e competência. É curioso como um estado tão pouco falado (ao menos no sudeste) como é o Espírito Santo tem uma orquestra tão consolidada e de alto nível. Na doutrina cristã o Espírito Santo representa a sabedoria, então, não deveria nos espantar que tal grupo honre essa dádiva e mostre ao mundo sua sabedoria musical. Ao menos por causa dessa orquestra o Espírito Santo deveria ser mais falado...e bem falado!
Fico por aqui, pois, amanhã retornaremos à rotina de aulas, ensaios e concertos. Estejam certos que darei mais notícias.
Grande abraço a todos!